Saiba mais sobre o estresse nosso de todo dia.


Ninguém está a salvo desse mal moderno. Mas é possível aprender a conviver com ele.


No início do século passado acreditava-se que, com os avanços da tecnologia, iríamos trabalhar cada vez menos e teríamos mais tempo para o lazer e a família. Ocorreu exatamente o contrário. As facilidades da vida moderna, como computador, internet, fax, telefone celular, TV a cabo, e a melhoria no sistema de transportes tornaram a vida muito mais rápida – e acrescentaram doses extras de stress à vida de todos nós. Para sobrevivermos no dia-a-dia, seja no trânsito, seja no trabalho, precisamos ter reflexos rápidos e pensar de forma acelerada para dar o próximo passo. A maioria das pessoas acumulou mais tarefas, ficam ligadas 24 horas por dia e vive angustiada num emprego que não sabe por quanto tempo será capaz de manter. A insegurança impera dentro de edifícios com sistemas de segurança dignos de fortalezas, e ninguém sai à noite sem um arrepio de medo. Em vez de relaxarmos, ficamos cada vez mais alertas e tensos. "Parece que o mundo todo opera em intervalos de cinco minutos", costuma dizer Bill Gates, dono da Microsoft. 




 O século XXI nasceu com fatores inesperados que aumentam a ansiedade geral, como o terrorismo. A ameaça não afeta apenas os lugares potencialmente alvos de ataques, como os Estados Unidos. Acaba por infernizar também as férias do turista brasileiro que precisa embarcar num avião ou tirar visto para viajar. Um instituto especializado estima que o nível de stress na população brasileira esteja 50% mais elevado que há quarenta anos. Os pesquisadores tiveram dificuldade em encontrar um brasileiro que não tivesse sentido pelo menos uma vez os músculos tensos, a respiração acelerada e a paciência prestes a ir para o espaço, sintomas típicos da tensão. "A sensação de impotência diante de um episódio banal do cotidiano, como enfrentar congestionamentos e não poder fazer nada para mudar a situação, é uma das principais angústias do homem moderno", disse a VEJA o médico sueco Lennart Levi, consultor da Organização Mundial de Saúde. 

 Com a pressão vindo de todos os lados, é natural que, num momento ou noutro, passe pela cabeça da maioria a ambição de largar tudo isso aí e ir viver uma vida tranqüila em outro lugar. Mudar de vida pode ser uma excelente solução para a tensão, dependendo evidentemente da vida que se leva. Qualquer decisão nesse sentido, porém, deve levar em conta um fato da natureza: ninguém pode evitar completamente situações estressantes. O stress não é doença, e, sim, uma reação instintiva ao perigo real ou imaginário ou a uma situação de desafio. "Uma cascata bioquímica que prepara o corpo para lutar ou fugir", na definição do manual de técnicas para aliviar o stress elaborado pela Escola de Medicina de Harvard, um centro de excelência nos Estados Unidos. 


O reflexo automático diante do perigo foi implantado em nossos genes para evitar que sejamos feridos ou coisa pior. Sem ele, teria sido impossível a sobrevivência da espécie. Ao contrário do que ocorre com os animais, cujo stress é predominantemente físico, a maior parte do nosso é mental. Visto sob a perspectiva da evolução, o stress psicológico é uma invenção recente. Nós, humanos, raramente somos obrigados a escapar de um predador faminto. Por outro lado, estamos expostos a assaltos, brigas de trânsito e desastres de carro. Nas três situações há risco de morte. O problema é que a vida moderna tem outros momentos estressantes em decorrência de reações emocionais a situações que não existem na natureza, como demissão, divórcio, reprovação na escola, pressão no trabalho e disputas com colegas. Nessas circunstâncias, o corpo libera adrenalina como se estivéssemos em perigo na natureza. Estima-se que o gatilho de adrenalina do morador de uma grande cidade seja acionado em média meia centena de vezes por dia. Na esmagadora maioria das vezes, como resultado da importância que damos aos incidentes comuns do cotidiano. 

O stress não é necessariamente negativo. O aumento gradativo da adrenalina melhora o desempenho físico e intelectual de maneira estrondosa – afinal, é para isso mesmo que serve. Quando bem usado, ajuda a superar desafios. É a adrenalina – um dos hormônios do stress – que faz com que atletas consigam superar limites numa competição ou que consultores de multinacionais terminem um projeto em tempo recorde. "Quando o stress é percebido como um desafio, pode despertar o que há de melhor numa pessoa", diz a antropóloga americana Susan Andrews, autora do livro Stress a Seu Favor. "Se traz emoções negativas, pode levar a doenças." O conselho de Susan para tirar proveito da energia do stress é aprender a intercalar os períodos de tensão, que são essenciais para o desempenho, com pausas de relaxamento para se recuperar. Quem não se permite descansar acaba pifando. Em outras palavras, só tira vantagem da adrenalina quem mantém o stress sob controle. 

Do ponto de vista físico, o stress é um banho de pura energia. Ao soar o sinal de alarme, doses maciças de adrenalina são despejadas na corrente sanguínea. A respiração acelera-se para fornecer dose extra de oxigênio. O coração bate mais rápido – cinco vezes o normal – e a pressão sanguínea sobe. Reservas de açúcar são convertidas em glicose para fornecer energia extra ao organismo. O sistema circulatório desvia para o cérebro e para os músculos o sangue de funções não-essenciais para a batalha, como a digestão, que é interrompida. A visão, a audição e até o raciocínio ficam aguçados. 

Numa situação normal, o ritmo do coração e a pressão do sangue se restabelecem e o processo digestivo recomeça, repondo a energia queimada na emergência. Infelizmente, nos dias atuais, não podemos contar com tal alívio. A civilização nos deu a oportunidade de experimentar essa descarga de adrenalina a cada semáforo. Como se está sentado ao volante do carro, todos esses preparativos para o combate são desperdiçados. E há dezenas de sinais de trânsito para provocar descargas inúteis de adrenalina. Se ocorre com freqüência e por períodos prolongados, o stress torna-se devastador para a saúde e para a qualidade de vida. Cada batida do coração com a pressão sanguínea acima do normal cobra um preço das artérias. O alto nível de glicose é um passo em direção ao diabetes e à obesidade. A mucosa do intestino fica vulnerável ao aparecimento de úlceras. A inundação de hormônios causa mau humor, ansiedade, irritabilidade. Um deles, o cortisol, permanece muito tempo em circulação e se transforma numa toxina que mata neurônios – daí os lapsos de memória associados ao stress crônico. 

A produtividade melhora quando estamos sob tensão constante – mas só até certo ponto. "Atingimos o rendimento máximo quando estamos próximos do nosso limite físico e psicológico. Depois que chegamos a esse limite, despencamos", disse a VEJA o médico americano Paul Rosch, presidente do Instituto Americano de Stress e autor de vários livros sobre o assunto, entre eles Identificando e Reduzindo o Stress em Sua Vida. Não há medida científica capaz de dizer o nível de pressão que cada um pode suportar antes de desabar num abismo emocional. O limite só pode ser estabelecido individualmente pelo modo com que cada um responde a situações estressantes. Para alguns, fechar negócios no pregão da bolsa de valores é motivo de tensão constante e meio caminho para uma gastrite nervosa. Para outros, é o estímulo necessário para superar obstáculos e crescer na carreira. O médico carioca Samuel Zuinglio de Biasi Cordeiro, de 50 anos, chefe do serviço de emergência do Instituto Nacional de Câncer, convive diariamente com a impotência diante do desespero de doentes incuráveis. Ainda assim, segundo ele, essa não é a principal causa de stress entre os médicos. "Há a competição profissional, a falta de tempo para a família e a dupla jornada de trabalho", comenta. A maioria dos médicos trabalha em mais de um hospital e no consultório e ainda fica de prontidão permanente para qualquer emergência. "E, no fim do mês, o salário nem sempre é suficiente para pagar todas as contas", diz Cordeiro. 

O stress é um sinal dos tempos em mais de um sentido. No passado, em situações similares de impotência diante do inevitável, as pessoas conformavam-se em viver na pobreza ou suportavam com maior serenidade as piores desgraças, porque acreditavam que essa era a vontade divina. Hoje, a responsabilidade pela vida profissional e pessoal está inteiramente nas mãos de cada um. "A possibilidade de escolha, em vez de facilitar a vida, trouxe angústias que antes não existiam", teoriza o médico Levi, da Organização Mundial de Saúde. "O livre-arbítrio é uma das principais causas de stress." Ninguém está a salvo, nem as crianças. Segundo o Instituto Americano de Stress, oito em cada dez consultas pediátricas nos Estados Unidos estão relacionadas a tensão. 

Pesquisas mostram que isso se deve a uma mudança de comportamento. Antigamente, as crianças ficavam mais soltas na rua e descarregavam a tensão em brincadeiras que envolviam exercícios físicos nos quais se exigiam menos resultados que nos esportes atuais. Hoje, brinca-se em apartamentos ou playground de condomínios. A prática esportiva, por sua vez, quase sempre envolve competição e avaliação de desempenho. Entre os idosos também houve dramático aumento nos casos de stress. Antes, as famílias moravam numa mesma casa, com marido, mulher, sogros e avós. Atualmente, é comum que os mais velhos morem sozinhos ou em asilos, mantendo pouco ou nenhum contato com os familiares. 

Situações estressantes no trabalho costumam colocar a questão da mudança: se o nível de stress está alto demais, deve-se mudar "de" emprego ou mudar "o" emprego? O ideal é seguir uma ordem de ação. O primeiro passo é ver que mudanças podem ser feitas no ambiente de trabalho para eliminar a fonte de stress. O problema são prazos muito apertados? Que tal antecipar as tarefas? É o mesmo princípio do trânsito congestionado: evita-se saindo alguns minutos antes de casa. O funcionário está sobrecarregado? Que tal sugerir à chefia nova divisão das tarefas? Claro que nem sempre é possível ajustar o ambiente de trabalho e, nesse caso, talvez o melhor seja procurar o sustento em outro lugar. Mas esse é só o segundo passo. Um bom conselho aos estressados é deixar para pedir demissão no dia seguinte. Ou seja, nunca fazer isso no auge do stress. 


Mudanças nem sempre são para o bem. Na verdade se mostram grande fonte de stress. Quem muda para uma cidadezinha ou para a praia – sonho favorito dos estressados urbanos – pode descobrir que o tipo de tensão que se pode ter no campo é apenas diferente daquele que se tem na cidade. Uma vida tranquila demais pode ser um tormento para alguém acostumado com a agitação da metrópole. E nem pense numa ilha semi deserta: a solidão é uma causa clássica de stress. As mudanças que realmente estão à mão são aquelas que envolvem hábitos de vida. O ideal é se preparar para enfrentar o stress antes que ele tenha ficado grande demais. Ou seja, tomar providências para reduzir os riscos de sucumbir às pressões. Não é tão complicado nem exige decisões radicais. Um corpo saudável, por exemplo, ajuda a reagir melhor às situações estressantes. A prática regular de atividades físicas auxilia no controle da pressão sanguínea e mantém o coração funcionando em ritmo adequado. 


Muito do que se sabe sobre o controle do stress é resultado da observação direta, feita por especialistas, do comportamento de pessoas que parecem naturalmente mais resistentes à pressão. Um estudo baseado na experiência de gente que sobreviveu com invejável serenidade a experiências devastadoras – sequestro, tortura, doença e perda de pessoas queridas – concluiu que resiste melhor ao stress quem tende a manter o foco nos assuntos imediatos (o conforto de uma criança doente, por exemplo) e não nos aspectos globais (a perspectiva da morte). Se há um ensinamento nessa pesquisa, é o de que o melhor remédio para o stress é não encarar cada obstáculo como se fosse o fim do mundo.


0 comentários: